quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Fábula da coletividade: nada nos dá legitimidade para supor que sejamos os proprietários deste planeta

Uma senhora vivia numa pequena chácara e tinha alguns animais: vacas, porcos, galinhas etc. Para alimentá-los guardava milho na tulha. Lá havia muitos ratos. Esses ratos viviam sossegados até o dia em que a mulher resolveu colocar uma ratoeira na tulha. Um dos ratos, na hora que viu a armadilha preparada para ele, saiu desesperado.
Logo à frente encontrou com uma vaca e disse:

- Vaca, nós estamos com um problema sério; armaram uma ratoeira lá na tulha. A vaca, por incrível que possa parecer, deu risada.
- Como nós? Você já viu ratoeira pegar vaca? Eu não tenho nada com isso. Me poupe. Isso é problema seu.
E saiu ruminando. O rato desesperado saiu a procura do porco:

Porco, nós estamos com uma encrenca danada, a mulher colocou uma ratoeira na tulha.
- O que é isso? Eu estou bem longe da tulha, isso nunca vai me pegar, não. E tem mais, ratoeira não pega porco, olha o meu tamanho. O problema é muito seu,se vira.
O rato, atônito, correu para conversar com a galinha:
- Galinha, nós estamos com um problema muito sério.
- Pelo amor de Deus, eu já não aguento mais problemas e vem você querendo me torturar. O máximo que posso fazer é rezar por você.
- Mas tem uma ratoeira armada lá na tulha, bradou o rato num desespero de dar gosto!
- Mas isso não é comigo, é contigo.
O rato foi embora desapontado, pois não conseguiu sensibilizar ninguém.
À noite todos dormiram e, de repente, splaft. A ratoeira desarmou. O barulho chamou a atenção de todos lá na chácara. Todos correram para ver o que aconteceu, inclusive o rato. Era uma cobra cascavel que havia sido pega na ratoeira.
A mulher levantou-se e foi tirar a cascavel da ratoeira e num descuido, tomou uma picada. Foi imediatamente levada ao hospital,por seus parentes, em estado grave. Ficou internada por vinte dias e, na volta, com a saúde muito debilitada, precisava de muitos cuidados e uma laimentação especial.
Qual a melhor dieta para recuperação da mulher?
Canja. Lá se foi a galinha.
Depois de um mês, com a saúde restabelecida, resolveu oferecer um almoço para todos seus parentes que a tinham ajudado, e lá se foi o porco (à pururuca).
A questão é que o tratamento no hospital tinha ficado muito caro (novidade né), vinte dias de internação, e aí não teve alternativa, teve que vender a vaca para um açougueiro.

Cuidado: A ratoeira que aparece ali num canto pode não te pegar num primeiro momento, mas os efeitos dela são fortíssimos. A nossa arrogância é tamanha que nos consideramos proprietários do planeta. Não somos proprietários, somos usuários compartilhantes.

Fonte: Qual a tua obra? Autor: Mário Sérgio Cortella

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